Álbum

Maracatu Rural

Em cores e fitas e rodopios, pés ágeis entre a terra e a poeira. Cravo branco que não cai da boca nem no passo mais ousado, símbolo de equilíbrio. Nas mãos uma lança que protege os ares, na cabeça fios brilhantes que repetem o movimento dos canaviais da Zona da Mata pernambucana. A chegada de um caboclo é cena que não se explica e nem se esquece.

“Tem chegada com a Cambinda,

é Maracatu Rural"

Sambada por Mestre Anderson Silva

Seu surrão nas costas, enfeitado de penas e lantejoulas bordadas pelas mãos canavieiras, é instrumento que faz musicar as ruelas das vilas. Caboclos de Lança são figuras que parecem anjos encantados a anunciar tardes e noites de brincadeiras. Ao lado deles, outro Caboclo: o de Pena. Esse com um cocar na cabeça e vestimenta que lembra que essa festa se fez do encontro entre indígenas e negros Pernambuco adentro.

Se o Maracatu Nação é o Candomblé derramado por Recife a partir do século XVIII, o Rural é a expansão do primeiro pelo estado, cerca de cem anos depois. As mãos dos tantos trabalhadores que foram procurar fazer a vida no plantio da cana-de-açúcar levaram junto seus reis e rainhas negros, as Damas do Paço e as Calungas com suas magias.

E em novo endereço aprenderam também a tocar trombone, saxofone e clarinete, a fazer sopro pouco compassado em instrumentos de orquestras: um baque novo, o Baque Solto. A realeza de Xangô se encontrou com o Boi-Bumbá em algum daqueles caminhos interioranos: é por isso que as figuras de Catirina e Mateus, dois personagens das histórias de bois, abrem muitas vezes os cortejos desse novo baque. O casal convida os canavieiros a descansar da realidade.

“O Maracatu Rural veio do engenho.

Só quem está dentro de um grupo conhece a magia desse ritmo"

Mestre Anderson Silva

As folias aconteciam nos engenhos para festejar o final de dias de labuta na roça. Foi daí que o Maracatu Rural nasceu leve e colorido: a fantasia fez-se sustento para o cotidiano. Em um desses engenhos, o do Cumbe, a Cambinda Brasileira começou a brincar em 1918: provavelmente o mais antigo dos Maracatus Rurais. Nos ensaios para o Carnaval de 2015, com 97 anos, essa Cambinda já planejava as festas de seu centenário.

Entre os fantásticos caboclos e os brincantes com suas camisas estampando a natureza local, as vozes dos mestres ecoam versos cantados: são as sambadas, competições que podem durar noites a fio. Se o Cambinda Brasileira é o mais antigo dos Maracatus da Zona da Mata Rural de Pernambuco, a voz que a representava naquele ano era mais jovem: com 19 anos, Mestre Anderson Silva impressionava por sua habilidade com as palavras e ritmos. Literatura oral assim não se aprende em livros, nem em faculdade: foram muitos anos escutando seus parentes mais velhos cantar !

“É lindo ver a Cambinda com o seu terreiro cheio,

Aonde eu estiver cantando, tem poesia no meio"

 Sambada por Mestre Anderson Silva

Poesia em voz, poesia em dança. Poesia de mãos: os vinte e um grupos de Maracatu da cidade de Nazaré da Mata e região se reúnem em seus barracões ao longo de meses para fazer cada bordado que brilha à luz do sol de fevereiro. Essa festa tem história para muito além do Carnaval...

Entre elas, a do Coração de Nazareno, o primeiro Maracatu 100% feminino do mundo, formado por mulheres que cansaram de somente trabalhar nos barracões, sem sair para brincar. Em 2004, as meninas da Anuman (Associação das Mulheres de Nazaré da Mata) decidiram que iriam fundar seu próprio baque: lá são Reis, Rainhas, Mestres, Caboclos, Catirinas e Mateus de sua própria brincadeira.

Com grupos totalmente femininos, Cambindas centenárias e jovens artistas do cotidiano: a cada ano, os Maracatus se encontram em Nazaré da Mata para se apresentar. Em cortejo, desfilam os encontros negros e indígenas, os reis com manchas de sol em uma pele que se enruga para sorrir. Dançam para cumprimentar os moradores das casas por onde passam, vão ao chão quando os surrões param de tocar. Com os feitiços de suas Mães de Santo, param de joelhos em frente às igrejas.

Miçanga a miçanga, fios dourados penteados nos capacetes cuidados ao longo de todo ano. Num cenário que lhes pintaram ser só labuta, os Maracatus desenham magia enquanto se permitem brincar: borram as fronteiras entre o real e o invisível e escrevem na imaginação das crianças a possibilidade de sonhar.

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