Jurema Sagrada

19min54

Jurema Sagrada. Afro Brasil. Culturas ameríndias. Quilombo Cultural Malunguinho. Encontro Nacional do Povo da Jurema. Alexandre L’Omi L’Odò, Ricardo Nunes. Quilombo do Catucá. Pernambuco. Milênios de Jurema. 12 anos de cerimônia. Mais de 2 mil pessoas no ritual

Jurema Sagrada

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Jurema Sagrada. Afro Brasil. Culturas ameríndias. Quilombo Cultural Malunguinho. Encontro Nacional do Povo da Jurema. Alexandre L’Omi L’Odò, Ricardo Nunes. Quilombo do Catucá. Pernambuco. Milênios de Jurema. 12 anos de cerimônia. Mais de 2 mil pessoas no ritual

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Jurema Sagrada

A Acácia está em todo o mundo, mas essa espécie da Mimosa - a Mimosa Tenuiflora ou Mimosa Nigra - floresce na região onde o mapa diz hoje ser Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Tudo que nasce nos Agrestes e Sertões nordestinos precisa ser profundo pra buscar água, para sobreviver. Nesses lugares do Brasil, as raízes compridas sustentam árvores que vivem mais de 200 anos e guardam um segredo que faz resistir milênios de ciência.

“Caiu uma folha da Jurema

Veio o orvalho e molhou

E depois e depois

Veio o Sol e secou

E a Jurema se abriu toda em flor"

Canção da resistência da Jurema Sagrada

Com as raízes: cascas, mel, gengibre, hortelã, cravo, canela e mistérios do além. Se os especialistas dizem que a bebida não provoca transformação e se os livros não conseguem dar sentido para a Jurema, a vivência ritualística revela os motivos de essa planta ser um símbolo do Sagrado para a sabedoria milenar ameríndia. É Catimbó. Tecnologia indígena, é ponte ancestral construída por Tabajaras, Potiguares e Cariris.

“A gente bebe a raiz da Jurema

pra chegar em outro mundo

e pra esse outro mundo

também chegar na gente"

Alexandre L’Omi L’Odò

Alexandre L’Omi L’Odò é o criador da celebração e um dos juremeiros responsáveis pela realização do Kipupa Malunguinho-Coco na Mata do Catucá, que existe há mais de 11 anos: o Encontro Nacional do Povo da Jurema voltou a repercutir essa que é, segundo alguns praticantes, a religião mais antiga em território brasileiro. Kipupa, no idioma africano quimbundo, é união; a celebração da cerimônia faz jus ao nome. São mais de quatro mil pessoas de todo o país que chegam para fazer o Coco no meio da mata sagrada, neste ritual que para outras religiões de terreiro significa a construção de campos energéticos positivos de grande profundidade. As cidades dos encantados então se abrem e todas as forças das entidades e da natureza se reúnem celebrando a vida.

Uma das principais vontades do Kipupa é tirar os juremeiros das estruturas de alvenaria das cidades e levá-los ao Quilombo do Catucá que em séculos passados foi historicamente terra de Malunguinho. Malungo que na língua kimbundo significa amigo, companheiro e camarada, dá origem ao termo Malunguinho, título dos grandes heróis negros que lutaram por liberdade em Pernambuco na primeira metade do século XIX. E “Reis”, no plural, significa que Malunguinho não foi apenas um, mas sim vários, sendo esta palavra a representação dessa coletividade de luta e memória ancestral.

A divindade pernambucana e histórico líder quilombola deificado, incorporado, recebe uma grande oferenda de frutas durante o ritual. Isso para agradecer suas bênçãos e curas na vida de milhares de mulheres e homens. Ele que é responsável pelo equilíbrio do fluxo espiritual entre juremeiros e o sagrado, sendo um elo fundamental no cosmo  da Jurema, controlando os portões dos mundos espirituais: as 7 Cidades da Jurema, que são representadas pela estrela de sete pontas. Usa contas em verde, vermelho e preto, estas duas últimas representando sua face de Trunqueiro/Exu, com arco e flecha e bodoque dos índios, caciques, pajés e caboclos e a gaita mestra dos Senhores Mestres. Quando “manifestado”, gosta muito de seu tradicional chapéu de chapéu de palha, símbolo de sua luta camponesa por reforma agrária.

“Malunguinho é um Reis, é um Caboclo,

é um Trunqueiro/Exu.

Ao mesmo tempo, ele também é um Mestre. Ele é tudo"

 Alexandre L’Omi L’Odò

Nos cultos de transe e possessão dos corpos de catimbozeiros por espíritos de mortos, existem três linhas de trabalho: as viagens aos Mundos dos Encantos, a “manifestação”  dos Mestres, caboclos, trunqueiros, reis, e encantados da Jurema e  outras entidades não pertencentes a sua raiz religiosa, acolhidas em seu panteão devido a vivência dos indígenas com africanos em quilombos e nas lutas por liberdade, como os Pretos-velhos, Exu de Umbanda e Pombojiras.

Os espíritos de Índios, Caciques, Pajés e Caboclo são o fundamento principal da Jurema. A eles estão subordinadas todas as outras entidades. São encantados invocados sempre no início dos cultos e relacionados aos guerreiros indígenas falecidos. São seres espirituais enviados ao Mundo dos Encantados das matas e rios com o conhecimento de ervas medicinais, banhos e rezas.

Os Mestres são os líderes responsáveis pela incorporação dos espíritos que curam e aconselham os praticantes, são os juremeiros: em vida foram caridosos curandeiros e, com sua morte, foram transportados a uma das sete cidades místicas localizadas próximas a um arbusto de Jurema. É para perto da árvore que o ritual caminha e é nesse local da mata que os Mestres incorporam.

“Vai fumaça pra onde eu mandar,

fuma cachimbo quem sabe fumar"

Canção das cerimônias de Jurema Sagrada

Outro personagem importante de todo ritual do Kipupa, e da Jurema, é o fumo feito de tabaco e outras ervas, cada uma com sua função. É através da fumaça que o juremeiro alcança seus desejos: quando quer algo, o catimbozeiro pega o cachimbo, fuma e solta a fumaça. Ela segue na direção do que é preciso ser solucionado.

Além do cachimbo, um ícone do juremeiro é a maraca. O chocalho indígena feito de cabaça entra em harmonia com o Ilú (um tipo de tambor tradicional de Pernambuco), e juntos eles povoam sonoramente as celebrações de tantos encontros.

Pajés, juremeiros e catimbozeiros são afinal sacerdotes e sacerdotisas que há muito rompem fronteiras: outros tantos mundos se aproximaram. A ciência da Jurema começou com os povos originários e incluiu excluídos em busca de libertação. Os negros africanos escravizados encontraram as aldeias e, nelas, a Jurema que os levou mata adentro para os quilombos. Ciganos, homossexuais. Gente da feitiçaria europeia, da pajelança, do catolicismo popular, do esoterismo moderno, da psicoterapia psicodélica, do cristianismo esotérico. Gente que anda para se encontrar.

“Os juremeiros são médicos de almas

e a Jurema é o hospital do Nordeste"

Alexandre L’Omi L’Odò

E para se curar, o Catimbó usa os saberes divinos das cascas, folhas e sementes das árvores sagradas do Sertão. Fazer limpeza, infusões e pomadas. É concreto e é divino. É o invisível que se cata com a mão.

Tão familiar que não se apaga nem com séculos de preconceitos: é um cheiro de chá de vó no quintal ao fundo do terreno, é o barulho do bicho na água que faz sorrir. É quando a alma abraça o chão. Quando a fumaça roda o mundo e traz um bom recado.

 

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