Ilha de Marajó

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Pajelança. Spiritism. Círio. Amerindian cultures. Marajó Island. Pará state

Ilha de Marajó

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Pajelança. Spiritism. Círio. Amerindian cultures. Marajó Island. Pará state

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Ilha do Marajó

De um lado: o Tocantins e o Amazonas, nomes de rios tão grandes que no Brasil batizaram também estados inteiros. Do outro, o mar Atlântico. E ainda assim... é terra a perder de vista. Casas baixas de um andar só, onde por debaixo passam águas doces e cobras grandes. O transporte é feito por bicicletas ou canoas ou búfalos! Sim, são 600 mil cabeças do animal que chegou da Ásia por volta de 1890 e se multiplicou como em nenhum outro canto do Brasil. Lugar de povos indígenas artistas a desenhar suas cerâmicas com histórias: marajoaras. Reduto de negros escravizados fugidos em busca de fé.

Antes chamada Mibaraió - barreira do mar no idioma originário tupi -, a Ilha do Marajó não é para principiantes: aviso aos pesquisadores e turistas mais curiosos logo mesmo no embarque em Belém. São pelo menos 3 horas de barco da capital do Pará até a maior ilha fluviomarítima do mundo: mais de quarenta mil quilômetros - uma Suíça! - em um pedaço de chão que está suspenso no espaço-tempo por rezas de pajés e saias de carimbós.

“A gente acredita numa folha,

numa árvore, numa planta.

Quando a gente atravessa

um rio em igarapé,

a gente pede permissão à água

pra passar”

Mundinho Coelho

E já no caminho da embarcação, alguma história cantada há se ouvir: o carimbó é um ritmo local com origem indígena que coloca em melodia os feitos e fatos da natureza. Um realismo fantástico ao som de tambores e triângulos. É como se do chão e da poeira que as saias a girar levantam… começasse a ser escrita na memória do corpo que dança… uma epopéia dos seres das florestas paraenses. É boto encantado, é cobra que traz sermão, é feitiço sim!

Impossível não se deixar levar pelo balanço de tantas águas, de tantas saias e de tantos sons. Águas-saias-sons que se misturam também às fés, no plural. O Espiritismo se encontra com a Umbanda e com a Pajelança nas salas e quintais de um povo que tem orgulho - entre outras suas características - de ser místico.

Bira é uma das pessoas que recebe entidades da Jurema, recomenda defumação e repete preces cristãs aos que a procuram em busca de curas e conselhos. Tudo isso combina com as cores de seus panos de vestir, de dançar, de compor a casa. Harmonia com o sorriso forte de marajoara, gente que acredita no invisível.

“Quando a gente está com a entidade,

a gente não lembra,  

é como se estivesse dormindo”

Pajé Bira 

E isso vem desde os tempos em que todos que moravam ali eram indígenas: e ainda são os comedores de farinhas de mandioca, os benzedeiros de ervas, os filhos daqueles ameríndios de então... A Pajelança é o nome dado ao conjunto de práticas e crenças aprendidos com os líderes espirituais das aldeias, repassados por gerações e incorporados entre outras procissões de fé.

Há gente que diga que o Marajó é a terra das simpatias: os pequenos ditos e remédios caseiros que tudo curam no Brasil. É, sim. Mas também é da Nossa Senhora de Nazaré que há mais de vinte anos faz também Círio em trasladação até a igreja local. A maior festa de fé paraense dobra as esquinas dos rios e a Santinha caminha entre as danças e receitas encantadas, entre orquestras afinadas, no meio das noites de um lugar que não é possível explicar.  

Não é para principiantes, mas é impossível de esquecer. Com gosto de queijo de búfalo e farinha fininha, ao som de de uma narrativa improvável. Quantas exclamações em temperos e orações e olhares! Por um lugar por onde não se anda sozinho, até as plantas observam os passos dos que se encorajam por entender: o único caminho é se deixar levar.

 

Entrevistas

Bira & Mundinho Coelho

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